Quem sou eu

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Recife, PE, Brazil
É kinda pretensious dizer que se é artista. Sou menos artista que Bukowski ou Fernando Pessoa. Sou mais artista que Gianechini ou Debora Seco... Somewhere in the middle. Sou atento ao mundo e busco sempre descrevê-lo de alguma forma e com algum tom de lirismo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Melancolia

Um convite a chorar.
Era o que ele sempre buscava.
A melancolia o fazia avançar.
Ela lhe impunha um desafio. Um “challenge”.
Um porquê de lutar.
Quantos versos lindos não foram escritos por sua mão molhada de lágrimas.
A tristeza era sua água, seu ar.
As gotas que escorriam seu rosto abaixo e salgavam sua boca lhe davam esta comovente sensação de vida.
Esta vida pranteada tantas vezes por tantos poetas cabisbaixos.
*
Um dia, no entanto, tudo isso mudou.
Uma garota.
Um beijo, um abraço, um “sim”...
E, de repente, o sorriso.
O sorriso perene.
Essa estúpida expressão no rosto que não o deixava.
E onde, meu Deus, foram parar Byron, De Musset, Heine, Leopardi...?
Ele não se reconheceu mais.
Chegou a se estranhar.
Felicidade?
Impossível.
A tal não poderia ser tão tangível como isto que sentia.
Mas terminou por convencer-se.
Era ela mesmo.
Esta que só bate à porta, e muito de leve, em alguns sonhos esperançosos de final de tarde.
Subitamente, viu-se desorientado.
Como levar uma vida feliz?
Na tristeza ele já era especialista.
Não precisava de mais nada.
Mas feliz?
Concluiu que seria preciso de muito esforço para conseguir a perícia que tinha na tristeza na felicidade.
Ficou um momento em silêncio, pensando.
E chegou à conclusão de que topava o desafio.
Seria feliz!
E, quando menos esperava, pegou-se sorrindo de novo.
“Que praga!” pensou ele...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Marriage

Não transavam mais.
Seguiam a vida normalmente. Trabalho. Pegar os filhos na escola.
Conversavam sobre as contas, os impostos, o casamento de uma sobrinha...
Ele dormia às vezes com uma moça do trabalho que queria crescer na empresa.
Não transavam mais.
Deitavam-se um ao lado do outro, diziam boa noite e apagavam as luzes.
E, no entanto, durante o dia, olhavam-se.
Nunca ao mesmo tempo. Na busca perene por uma explicação.
Algo havia sido perdido. O que?
Ele sabia que nunca sentira por ela tanto carinho como agora. Mas nunca havia sido tão incapaz de demonstrá-lo.
Não sentia desejo por ela.
Desejava senti-lo, mas não sentia.
Não sabia ao certo...
“Rex não quer ser alimentado, ele quer caçar”.
Desculpa que o fazia levar seus dias na ausência de explicação.
Que tormento esse o de não querer estar com quem se quer estar.
A liberdade tolhida. Isto o matava.
Pensou em largar tudo e procurar outra. Outra vida.
Mas não era isso que queria. Queria querer o que tinha.
Chegou o dia do vigésimo ano de casamento.
Encontraram-se na cozinha no final do dia.
Ele pensa em comentar algo sobre o dia especial. Não... Ela nem deve estar lembrada.
Ela pensa em comentar algo sobre o dia especial. Não... Ele nem deve estar lembrado.
Quer macarronada? Eu esquento pra você no micro-ondas. Quero.
Ela pega o prato na geladeira e aproxima-se dele, que está ao lado do aparelho.
Um minuto e trinta segundos de aquecimento.
Um minuto e trinta segundos de silêncio.
Meio metro de distância.
E se eu pegar sua mão agora?
E se eu lhe der um beijo?
Queria querer...
Bip, bip, bip, bip...
Ele senta à mesa com o prato.
Senta aí.
Ela senta.
Silêncio.
Apenas o grunhido da mastigação.
Lívia passou na prova. Eu soube.
Mais tarde no quarto, os dois de banho tomado e perfumados.
Luzes das cabeceiras acesas.
Olham-se.
Olham-se...
Boa noite,
Boa noite.
Apagam-se as luzes.

domingo, 5 de setembro de 2010

Quarto de noite.
Marília e Carlos.
Os dois estão deitados, um de frente para o outro.
Marília está de roupa de cama e Carlos está de roupa de rua. Calça jeans, sapatos e casaco de lã.

MARÍLIA – Acho que estou gostando dele, Caco.
(pausa)
CARLOS – É?

É. Ele parece com você.

 Pra variar...

(Marília dá uma risadinha e pergunta:)
Que foi?

Eu não disse nada.

Eu sei o que você está pensando. Toda vez é a mesma coisa.

Não to pensando em nada...
(pausa)

Ele é bem apaixonado pelas coisas. Assim como você era...

Quem te disse que eu não sou ainda?

Não sei. E nem quero saber.
...
Ele tava me explicando o procedimento de serialismo na música de Stravinsky o outro dia.

Ele é músico?

Não... Se formou em ciências contábeis.

Pff...

Que foi? Nem todo mundo precisa fazer artes para ter algum valor.

Não disse nada.

Mas pensou.

Pensei.
(Marília olha para Carlos, enfadada)
Às vezes o jeito que ele olha para mim me faz lembrar de você.
Uma expressão que ele faz assim.. Quando me beija...

Você se lembra do meu beijo ainda?

(Marília faz cara de reprovação)
Você é um idiota.

(mudando de assunto:)
Mas então é isso? Você está apaixonada por esse cara?

Apaixonada não.
(pausa)
Nunca mais estive apaixonada desde você.

(Carlos sorri)

É isso que você quer ouvir não é?
Pois é isso mesmo. Mas não ache que eu gosto disso.
Isso vai mudar já já.
E você nunca mais vai estar aqui na minha cama.

Eu só estou aqui porque você quer.

Eu não quero.

Porém cá estou...
Não vem me dizer que você preferia estar com o outro tapado que decora a primeira frase do Wikipédia de algum compositor erudito para bolar na sua frente.

Achei bonitinho...

E ele nem se deu o trabalho de ver seu orkut para saber que teria sido muito melhor falar de Louis Prima ou de Leonard Cohen.

(Marília, em silêncio, olha para o nada)

Ele escreve sabia?

Ah é?

Poesias...
Ele é muito sensível.
Outro dia fez uns versos para mim.

(Carlos, satirizando:)
“Como são belos seus cachos de mel, dá-me vontade de lhe oferecer o céu...”

Idiota!

É algo diferente disso?

Não é nenhum Paulo Leminsky. Mas é bonitinho.

Marília, por que eu estou aqui?

(pausa)
Não sei.

Não sabe?
Por que eu estou aqui? Hoje e todos os dias?
Por que passo horas ao seu lado sem você conseguir dormir?

Não sei! Não sei!

Eu acho que sabe.

Não sei não!

Você me busca em todos os seus paquerinhas medíocres, passa a vida lutando para fazer com que eu não apareça em suas noites solitárias mas, por um motivo qualquer, estou eu sempre aqui de novo...
Você me quer Marília.

Não!
Não depois daquilo...

Aquilo foi um erro que qualquer um pode cometer, Marília.

Não!
Não você! Não comigo!

Eu lhe pedi desculpas.

Não quero saber. Nunca mais vou me encontrar com você.
Você me machucou.

(pausa)
(Marília está séria e triste)
(Carlos:)
“Come Rain or Come Shine...”
Você se lembra?

(Marília não responde nada. Está séria)

(Carlos toca um piano imaginário)
I´m gonna love you
Like no one loved you
Come rain or come shine…
But don´t never leave me
Cause I´m gonna be true
Well, if you leave me
You ´re gonna love me
Like no one loved me
Come rain or come shine…

(Ao fundo “Come rain or come shine”)
(Carlos, murmurando:)
Sabe que Ray Charles escreveu essa música... Ele tava sofrendo porque sua amada não queria mais saber dele pois ele havia tido outra. Ele não se cansava de dizer para ela que a outra não significava nada para ele. Nada. Que tudo o que ele queria na vida era poder tê-la em seus braços sempre e sempre. Esquecer qualquer desavença. Pensar no futuro. Nos filhos que haveriam de chegar um dia. Na família linda que eles seriam...
(Carlos tenta abraçar Marília)

(Marília desvencilha-se)
Mentira.

(Carlos deita-se para cima e olha para o teto.)

Você é teimosa, Marília.
O que eu estou falando é tudo o que você quer que eu fale.

Não. Não...

Você devia tirar essa capa de proteção que você mantém em volta de você.
Você devia pensar no que você realmente tá querendo.

Pára de falar.

Você me quer, Marília.
E eu quero você também.

Pára!


(Marília chora. A música rasgada continua ao fundo)
Você nem veio me procurar mais!
Nem sequer para se desculpar! Nem sequer para me dizer que não me queria mais!
Como é que eu fico?
(Ela soluça)
Do nada você some! Do nada você começa a aparecer com ela nos cantos.
Nossos amigos todos... Ninguém entendeu! Eu não entendi!
(aos prantos:)
A gente era tão bonito...
Tão bonito...
(chora... chora...)

(Carlos olha para ela com frieza)
Eu deixo ela.
Eu fico com você.
Só você conta pra mim.

É sério isso?
Você quer mesmo?

É sua imaginação, meu bem...
Eu quero o que você quiser...

(tempo...)
(Marília olha para Carlos intensamente)
(voltando a chorar:)
Eu quero!
Quero você pra mim! Só pra mim!

(Marília abraça Carlos bem forte)
(Marília está abraçada a um travesseiro. Não há mais ninguém em seu quarto. Marília chora.)

sábado, 28 de agosto de 2010



São três da manhã.
Nova York está fria.
Estou remontando meu 38.
Costumo desmontá-lo às vezes. Para poder limpar o cano direito.
Freddy deve me ligar a qualquer instante. Quando isto acontecer, me encaminharei para o que será, talvez, minha última missão.
Essas coisas a gente não explica. Apenas sente. Há algo de estranho nesse caso. Algo que não junta as pontas. Um tom na voz de Freddy ligeiramente mais agudo.
Nunca pensei que seria por Freddy que eu seria mandado para os peixes.
Não que eu ligue.
Na minha profissão, quando você é marcado para ir, não importa por quem é. Você apenas vai.
Alguns tentam fugir. Se refugiar numa família rival...
Comigo não é assim. Se tem algo pelo o que eu prezo, além da buceta de Carmella, é a honra.
Três e vinte e seis. O telefone toca.
- Desce. Estamos aqui.
Coloco meu “pardessus” preto. Meu 38 por trás da minha calça. Puxo um cigarro do maço e desço. Freddy está fora do carro fumando o seu cigarro em meio a névoa nova-iorquina. No volante está Salvatore Picci e atrás Toni Bulldog.
- Qual é o nome da música que Fred Scotti canta no Canto di Malavita? Pergunta Freddy.
- Acho que é Canto di carcerato.
- Boa, rapaz! Sobe aí que não temos muito tempo.
Subo no carro. O clima é tenso.
O silêncio predomina. Acordo que possa ser por causa do horário. Mas fico alerta.
Pegamos a highway.
- Não íamos para o Queens? Pergunto.
Silêncio.
- Vamos para Nova Jersey. Diz Freddy finalmente.
Não pergunto nada. Não há nada a perguntar.
Eles vão me levar para o campo e me liquidar.
O padrinho não se convenceu de que eu não estivesse envolvido com os Gamberis no último golpe à carga de paletós italianos.
Claro, não é verdade.
Como eu disse: se tem algo pelo o que eu prezo além da buceta de Carmella...
Verifico mentalmente se deixei tudo certo para Carmella. A carta. O envelope com todo o dinheiro que consegui. As passagens para Napoli para ela e para Vitorio, o filho dela.
Caso eu chegue em casa vivo, terei tempo de recolher o envelope antes de ela acordar. Mas minhas esperanças estão muito pequenas. Highway, em direção a Jersey, às três e meia da manhã, na minha situação, meu amigo...
A estrada fora do carro é escura. Passamos em meio a um monte de milharal.
Já, já pararemos para Freddy mijar, penso eu.
“Leave the gun, take the canolli”... Já to vendo...
Na monotonia do zunzum do motor, começo a pensar na solução que eu não havia pensado até então. “Fuck proud!” Disse Marcellus em Pulp Fiction. Por que não?
Talvez eu pudesse reagir. Freddy não desconfiaria de mim. Ele acredita que eu tenho honra. E eu tenho!
Ora merda!
Mas tenho que pensar na minha pele...
Não seria fácil. Eu teria primeiro que eliminar o Bulldog. Em seguida, sem titubear, uma bala na cabeça de Freddy e outra na de Salvatore.
É algo que pode ser feito.
Só sinto por Freddy. Tínhamos uma relação muito boa. De freqüentar a família e tudo. Foi ele que me trouxe para os Campesinis quando eu estava afogado em necessidades.
E sinto por Salvatore também. Sua filha nasceu semana passada. Pobre Salvatore...
Pobre Salvatore o caralho! Ou sou eu ou é ele!
E também vai ser uma ótima oportunidade de apagar esse paquiderme filho-da-puta do Bulldog.
Tem que estar tudo muito bem planejado. Apago os caras e volto para casa antes das cinco. Acordo Carmella e Vitorino e sem esperar um minuto corremos para o cais. Destino: Napoli. Uma nova vida em meio ao ar puro da região da Campânia.
- Salvatore, encosta aí. Diz Freddy. Desliga os faróis.
Puta que pariu! Penso eu. Fudeu tudo!
Tenho de apagá-los agora! Se esperar para quando sairmos do carro, eles vão estar preparados para uma reação minha. Tem que ser agora!
- Marco, diz Freddy para mim, estamos esperando uma carga da pesada que está chegando de Miami. O assalto vai ser mais perigoso que de costume. É provável que tenha capangas no caminhão. Por isso dessa preparação toda. Você vai ficar na linha de frente com o Bulldog enquanto eu fico na retaguarda e Salvatore fica no carro esperando para dar partida se der alguma merda.
Fico atônito por um momento.
Um assalto à carga!
Eu todo preocupado pensando que estava marcado pra morrer e esses porras me dizem que vamos fazer um assalto! Mais um assalto!
Respiro aliviado.
Saio do carro, seguido pelo Bulldog e por Freddy.
Bulldog traz uma metralhadora AK-47 consigo.
Nos posicionamos e esperamos.
Com algum tempo de espera, no qual fumo alguns cigarros e olho com má vontade para o imbecil do Bulldog, o claro desponta no horizonte e aparece um caminhão ao longo da estrada.
Nos preparamos.
O assalto ocorre tranquilamente. Só dois capangas acompanhando o motorista. Nem tive que fazer nada. O Bulldog encheu o cú deles de bala. A carga era de brinquedos de pelúcia. Empanturrados de coca, claro.
Comemoramos a conquista com charuto.
Freddy manda o Bulldog ir dirigindo o caminhão.
Voltamos para o carro, Freddy e eu.
- Porra, Freddy! Eu pensava que vocês iam me apagar, caralho! Por causa daquele negócio todo da carga dos Armannis.
Freddy dá uma risada.
Eu rio também.
- Porra, Marco, diz ele rindo, você não acha que ia se livrar dessa né?
E Freddy aponta seu 45 para minha cabeça.
“Filho da puta!!” é a última coisa que penso antes de ter meus miolos estourados.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Noite. (Aventurando-se em outros estilos II)

Para variar, não conseguia dormir.
Cansado demais para fazer qualquer coisa. Desperto demais para cair no sono.
Letargia mórbida.
Via através da janela os poucos e fracos focos de luz que causavam esta irritante luminosidade em seu quarto. Devia ser por isso que não conseguia dormir. Só podia ser...
Madrugada adentro, antevia o momento angustiante do despertar no dia seguinte. Momento em que seria capaz de se comprometer das piores maneiras possíveis somente para permanecer dormindo.
Quanto mais o tempo passava, mais sua angústia crescia, sabendo que teria menos tempo de sono.
Tentou se tocar. Não conseguiu excitar-se.
Virou para um lado. Virou para o outro.
Suas pálpebras doíam de pesadas. Sua respiração era quase ofegante.
Que merda! Que merda! Pensou ele.
Sua aflição crescia e impelia-o a saltar da cama e andar em voltas. Mas fazia de tudo para controlar-se pois já sabia que isso só tardaria ainda mais a chegada do sono.
A hora de acordar amanhã não mudaria.
Lamentou por antecipação seu atraso do dia seguinte. Atrasava-se sempre...
Foi quando começou a formular frases mentalmente.
Frases que definiam seu estado presente.
Suas frases foram acalentando-o. O sono foi chegando.
Foi gostando de suas frases e lamentou pois não se lembraria delas no dia seguinte.
Precisava escrevê-las.
Mas não podia. Aquilo só tardaria ainda mais a chegada de seu sono.
A hora de acordar amanhã não mudaria.
Que merda! Que merda! Pensou ele.
Sua aflição crescia e impelia-o a saltar da cama para escrever suas frases.
Lamentou por antecipação seu atraso do dia seguinte. Atrasava-se sempre...
What the hell! Pensou ele.
Saltou de sua cama, abriu o Word em seu computador e começou a escrever:
“Para variar, não conseguia dormir.
Cansado demais para fazer qualquer coisa. Desperto demais para cair no sono.
Letargia mórbida...”

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Treze anos

Treze anos.
Ela tinha apenas treze anos.
Acabara de fazer treze anos.
Voz de menina, espinhas espalhadas pelo rosto.
E não é que de repente apareceu-lhe seios! Pequenos. Mas estavam lá.
Era com espanto que ele via sua filha, de repente, gostando dos Beatles.
Mas tudo bem. Quem não gosta?
Ontem, voltando de viagem, ele comprou para ela um telettubie de pelúcia. Foi uma festa.
Hoje, ela passa pelos corredores cantando em alta voz “Why don´t we do it in the road”. O telettubie está enterrado em algum armário de entulhos. Entulhos do passado.
Ele não consegue acompanhar essa transformação. Revolução. Sua filha não brinca mais. Passa horas a fio “conversando” pelo computador. Com quem conversa? Sobre o que?
Quando os amigos estão em casa e ele passa, ela sente vergonha do pai.
“Fase louca” pensou ele.
Mas esse estado passivo de perplexidade veio a mudar drasticamente.
Foi quando um dia recebeu notícias anônimas - do seu filho mais velho – que tomasse cuidado com um tal de *** que vinha conversando demais com ela pela internet. E o pior: o tal *** tinha dezoito anos.
Dezoito anos!!!
Assustou-se um pouco mas terminou acalmando-se pois, afinal, não havia o que temer. Ela era definitivamente pequena demais para qualquer coisa de errado.
Mas o golpe final veio logo em seguida: descobriu, pela mesma fonte anônima, que as últimas duas vezes que ele tinha ido deixar sua filhinha no shopping para ver um filme com uma amiga, a “amiga” não era outra pessoa que não ***.
Ele ficou maluco.
Maldisse nove gerações para cima e para baixo do coitado do ***. Jurou que nunca mais permitira a sua filha alguma ida sozinha ao shopping. “Meu bebezinho com um velho safado de dezoito anos!”. Ficou andando nervoso de um lado para o outro imaginando sua filha andando de mãos dadas pelo shopping. Foi quando tudo congelou, seus músculos todos se contraíram. Viu tudo em preto e branco e pensou: “Meu Deus! Será que aquela criatura abjeta, sem escrúpulos e amor à vida OUSOU dar um beijo em minha preciosinha?”.
- “Ôo, pai...” - fez sua fonte anônima de informações. “Claro né!”.
Era demais! Colocou sua mão direita no coração, tentando conter um iminente ataque. Mexia o rosto nas direções mais diversas, a boca entreaberta, tudo isso em slow motion.
Tomou uma decisão séria em relação a ***: Iria castrá-lo e jogá-lo do precipício.

Não teve coragem de ir falar com sua filha sobre o acontecido. Ela soube que ele sabia pela mãe, que muito se divertia com a situação. “É a idade, querido..”
- IDADE?!!! – gritou ele, andando de um lado para o outro do quarto enquanto destruía um pacote de Mentos - Você quer me falar em IDADE?!! Isso é uma puta falta de absurdo!!
- Querido, a gente começou a namorar quando eu tinha a idade dela.
- Mas era diferente! No começo a gente só pegava na mão. Pelo menos por... sei lá... cinco anos!
- Claro que não! A gente se beijava no portão o tempo inteiro.
- Você está de que lado?!!! Posso saber?!!! Hein?! Posso saber?!!

O convívio em casa ficou meio arredio nos dias que se seguiram. Ele passava pela sala e lá estava ela no computador conversando com o desgraçado. Quando ela sentia sua presença, fechava a janela da conversa. O que estariam eles conversando? Imaginava todo tipo de obscenidade, absolutamente indigna do tesourinho dele de treze aninhos.
Chegou uma vez por trás dela. Ela fechou rapidamente a janela.
- Que é que vocês estão conversando?
- Nada. Ela respondeu.
Ficou por isso.

Não conformado, obstinado em saber o que eles conversavam e consciente de que não havia meios corretos para descobrir o que queria, decidiu apelar para o Plano B. Já que os escrúpulos haviam sido abandonados há muito tempo, pegou sua máquina fotográfica recém-comprada com zoom de 24x, postou-se do outro lado da sala, tomando cuidado para não ser visto pela filha, e tirou uma foto do monitor do computador.
Correu para o seu próprio computador e importou a foto.
O que estariam eles conversando? Estaria ele narrando seu grau de excitação ao lembrar do beijo seu? Estariam eles combinando uma fuga furtiva para ficarem juntos sem sua autorização? Mal conseguia conter sua ansiedade, prevendo um grande desgosto.

Quando ele abriu a foto, não viu o que esperava. O que eles diziam parecia ser retirado de uma conversa de criança. Falavam de peixes que eles já haviam visto na praia, águas-vivas, ataques de tubarão. Se era algum código cifrado estava fazendo muito bem seu papel.
De súbito, o pai sentiu-se desarmado. A inocência por trás do diálogo que ele espreitara chegou quase a o comover. Sua filhinha, seu bebê, estava paquerando! Estava experimentando pela primeira vez as delícias do sentimento da paixão. Lembrou-se de como era ter treze anos. A ânsia pelo desconhecido, o frisson da insegurança... “Uma adolescente em seus primeiros desejos” como diria Moustaki...
Passou um momento imóvel diante da tela do seu computador.
Um sentimento de carinho o invadiu.
Repensou sua decisão: não o castraria mais.
Apenas o jogaria do precipício.

Retrato



(c) Henrique Vieira 2010

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O resto você já sabe...

Madrugada adentro, estavam no carro havia horas. Parados na garagem do prédio dela.
O som ambiente já havia passado por O Inimitável do rei, Hound Dog, com direito a imitação barata de Elvis, Yann Tiersen... Agora repousava em algumas músicas calmas dos Beatles.
Um silêncio se fez entre os dois.
Ela, escorada contra sua cadeira e coberta pelo agasalho dele. Seus olhos claros, resplandecentes, fitando-o, sempre e sempre.
Ele, com o rosto virado para ela. Desejando cada pequeno detalhe do que via.
I once had a girl, or should I say, she once had me...
Já haviam conversado muito. Ele escutara atenciosamente cada reclamação, questionamento que ela tinha em relação à vida. Sua relação complicada com o namorado, seus desejos frustrados, sua vontade de felicidade que urgia...
Se a alguns anos atrás ele se sentiria enciumado pela menção do novo namorado, era hoje com um grande e genuíno interesse que ele dava ouvido a ela e seus problemas.
“Devo ter crescido” pensou ele, satisfeito.
Entendia-a em sua confusão.
Queria que ela ficasse bem. (Embora não duvidasse que o melhor para ela era deixar tudo e ficar com ele).
Because the sky is blue, it makes me cry...
Passou sua mão no rosto dela. De leve.
Não ousaria tentar mais nada. Seria uma ofensa grande por demais.
Imaginou-se em breve com ela. Andando de mãos dadas em torno de um lago.
Sabia do risco que tomava a estar entregando seus pensamentos dessa forma.
Mas afinal era preciso sonhar...

Love is all, love is new
Love is all, love is you…

Sagesse...



(c) Henrique Vieira 2010

domingo, 8 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

domingo, 1 de agosto de 2010

Brigas (aventurando-se em outros estilos)

Gostava de brigas.
Brigar lhe permitia revelar, para a outra e para si mesmo, seu autêntico eu.
Todo o resto que não fosse os gritos e os palavrões de uma briga era mera encenação forçada. Suas palavras sedutoras, seu sorriso à la Richard Gere, seus discursos intelectualizados...
“Acho pretensioso Jodorowski e sua loucura”.
Tudo manifestações supérfluas de sua verdadeira personalidade.
A verdade era que a vida lhe havia reservado frustração atrás de frustração.
Era frustrado por demais em seu dia-a-dia. Mas não o suficiente para que pudesse tacar fogo na pólvora. Então buscava desesperadamente esse resto que lhe faltava.
Atiçava, provocava suas namoradas. Fazia de tudo para tirar delas a razão e abrir assim o espaço para o seu verdadeiro show. O que ele era realmente.
Eu sou isso! Sou esse que grito. Sou esse que te faço chorar.
Aproveitava esses raros momentos de êxtase para compensar cada pequeno ressentimento contido de sua droga de vida.
Gostava das meninas fracas e carentes. Eram essas que agüentavam mais tempo de sofrimento, mais tapas na cara, mais humilhação.
Um dia conheceu uma dessas.
Coitada, como sofreu!
Como ele gozou de sua fragilidade!
Mas ele não contava com o irmão dela mais velho. Que não gostou nada.
Morreu de uma bala na cabeça.
Demorou-se doze dias para que encontrassem o seu corpo.
Alto nível de putrefação.
Finalmente seu autêntico eu.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Just the way you look tonight...

“Fraqueza!” Pensou ele.
Isso é o que era a paixão.
Um estado extremo de hipersensibilidade que qualquer cutucada levava o mundo abaixo.
Se fosse uma cutucada gentil e amorosa, fazia-se céu a terra.
Mas a vida... Ah... A vida era uma danada!
Cada cutucada uma mais violenta que a outra!
Não! Já bastava!
Tomou uma decisão séria: nunca mais se apaixonaria novamente.
E pronto! Foi dito.
Tomou sua gemada e foi para a cama dormir enquanto todos os móveis de sua cozinha riam dele secretamente. Sabiam que muito em breve estaria louco novamente, cantando “The way you look tonight” só de cueca pela casa, servindo-se do saleiro por microfone.
Era um incorrigível...

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Perfume.

Foi pro show sozinho.
Era um encontro de artistas que haviam marcado muito sua vida e levar qualquer pessoa para sentar ao seu lado só poderia prejudicar sua atenção naquele momento tão especial. Por isso, pegou o carro sozinho, bebeu tranquilamente um cappuccino num café ao lado do teatro e, quando deu a hora, entrou.

O teatro estava praticamente lotado. As últimas cadeiras disponíveis iam sendo ocupadas aos poucos pelas pessoas que chegavam, em sua maioria casais. Permaneceu imóvel em sua cadeira, olhando para o nada, à espera do segundo toque, que devia ressoar a qualquer momento. Pensou quaisquer que sejam os pensamentos que se pode ter durante esses tempos mortos do dia-a-dia. Em meio ao murmúrio de pré-apresentação que dominava a sala, algumas pessoas ainda passavam por ele, procurando seus assentos. E foi numa dessas passadas que ele sentiu. Um aroma, um perfume. Parou para pensar de onde ele conhecia tão bem este cheiro. Era, com certeza, de algum lugar longínquo de seu passado. Mas não sabia ao certo de onde.

Ressoou o segundo toque. Em seguida o terceiro.
Entraram os músicos. Aplausos, palavras iniciais, aplausos, violão.
A música o embebeu por completo. A cada palavra da canção, resgatava os diversos significados que ela já havia tido no decorrer de sua vida. E então, de súbito, lhe veio: Maria Edwiges!

Era o perfume de Marie Edwiges! Sua primeira namorada, que ele havia tido aos treze anos, na Suíça, quando morara lá! Havia dez anos que não sentia esse cheiro! Um perfume doce, essencialmente feminino, que, se permitindo dar um palpite, ele julgou ser de pêssego. Embora de cheiro ele entendesse pouco.

Ora lá estava Marie Edwiges, dez anos depois. Presente pelo cheiro! Lembrou-se de seu primeiro beijo com ela – que havia sido seu segundo beijo na vida. O primeiro fora com uma prima mais velha. “Pra treinar”... Suas idas de bicicleta a sua casa. Os “passeios com o cachorro” que iam dar para que pudessem se beijar. E a vergonha. Quanta vergonha! Vergonha que seus pais o vissem com ela, vergonha de falar no telefone com ela quando seus pais estavam por perto...

O que teria acontecido com Marie Edwiges? Dos treze aos vinte e três. Uma vida de diferença. O que estaria ela fazendo? Que tipo de música gostava de escutar? Casara-se? Morrera? Lembrava-se dele? Provavelmente. Ou não...

Pensou sobre o quanto uma menina que ele conhecera tão pouco intimamente conseguira satisfazer tanto os seus sonhos de menino. E o quanto era difícil, naquele momento, encontrar alguém que pudesse lhe trazer este nível de satisfação. A realidade era outra. As exigências eram outras. Perdera a inocência adolescente. Entrara pro mundo complexo e arredio dos relacionamentos adultos. Pensou nas meninas que se seguiram àquela primeira. Lembrou-se de cada rosto, cada sorriso, à medida que as músicas iam passando. O que teria acontecido com elas todas? De algumas ele ainda tinha uma notícia ou outra. Mas na maioria dos casos elas haviam sumido de sua vida. E, de repente, sentiu-se só. Chegou quase a admitir que queria alguém ao seu lado naquele momento. Alguém que ele pudesse segurar a mão e fingir ser seu namorado de longa data.

Decidiu parar com esse fluxo de pensamentos. Para baixo demais para o seu gosto. Mas quando sua música preferida terminou, todos aplaudiram menos ele. Ficou imóvel em sua cadeira. Pensando.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Foi só uma expressão de carinho porque você estava muito fofa hoje.

Não quis dizer nada.
Foi só uma expressão de carinho porque você estava muito fofa hoje.

Um beijo roubado.
Um sorriso cúmplice.
Um olhar meio desajeitado por ter sido algo inesperado.
Foi só uma expressão de carinho porque você estava muito fofa hoje.

domingo, 18 de julho de 2010

O caso de Eric e Ízabel

Dizem que o caso Eric e Ízabel gerou muitos tumultos no reino de Vênus. Diversos anjos cupidos já haviam sido escalados em várias ocasiões e todos eles terminaram, de uma forma ou de outra, falhando. (Mesmo que alguns tivessem chegado muito perto do objetivo).
Foi quando Vênus, a própria, decidiu colocar Mikaelikos no caso.

Mikaelikos era um cupido aposentado que contava em seu currículo com nomes fortes como os de Romeo e Julieta, Tristão e Isolda, Marco-Antônio e Cleópatra,(...) só para citar alguns. A princípio, o velho anjo (que só se distingue de um jovem pela sola do pé, ligeiramente mais enrugada) não quis se envolver, alegando cansaço. Mas quando Vênus lhe propôs uma nova lira e um lugar de destaque na orquestra celestial (que tocava uma vez por semana para ninguém menos que Zeus, o Todo Poderoso), Mikaelikos reconsiderou a oferta. Além do mais, ouvira falar que o casal do caso era de Recife, cidade na qual havia trabalhado alguns séculos atrás e lhe deixara ótimas recordações.

Resultado: reabriu-se o dossiê. De um lado Eric, do outro Ízabel.

Eles haviam se conhecido na adolescência. O anjo então encarregado de Eric, um novato querendo mostrar serviço, carregara pesadamente sua flecha e atingira Eric em cheio. O golpe gerou para sempre uma grande disposição de Eric à paixão por Ízabel. O problema: O anjo de Ízabel já tinha acertado a menina com algum outro menino. Conflitos de interesses, desequilíbrio na harmonia do reino de Vênus... O anjo de Eric foi demitido, prejudicando fortemente o que seria uma carreira promissora.

Alguns anos mais tarde, já de anjo novo, Eric reencontrou Ízabel. Foi pela internet que começaram a ter contato. Com a predisposição de Eric e o recente estado de solteira de Ízabel, o anjo de Eric, o eficiente Clomicos, não teve dúvida: tascou-lhe uma flechinha na batata da perna. As conversas evoluíram bem. Chegou-se a marcar um primeiro encontro. Mas o anjo de Ízabel, o teimoso Gorcos, não estava convencido: era cedo demais. Ízabel havia deixado sua última relação há muito pouco tempo. Negou o acesso. Clomicos foi julgado. Mas conseguiu ser absolvido, por pouco.

Clomicos tendo conseguido ficar no posto, decidiu que seu projeto seria realizado de toda forma. Se era tempo o que exigia Gorcos, dar-lhe-ia tempo.
Cinco meses mais tarde veio a reinvestida.
Uma saída combinada. Gorcos, desconfiado, liberou Ízabel. Secretamente ele pensava: ela não está pronta. É bom que eles vêem de uma vez por todas que não dá certo e pronto.

Acontece que Gorcos estava enganado. O encontro dos dois foi maravilhoso. E antes que se pudesse pensar qualquer coisa, os dois já estavam caminhando para uma linda relação.
Gorcos ficou indócil. E dizem que até ao submundo celestial ele recorreu para conseguir poções maléficas para usar nas flechas com Ízabel.
Resultado: Ízabel terminou com Eric.

Eric, desolado, não sabia a quem recorrer. Dizia, desesperado, para Clomicos: Mas ela é perfeita para mim! Não se pode deixar passar uma oportunidade dessa na vida!!
E Clomicos, sem nada poder fazer, olhava triste para Eric. Em sua experiência de 57 anos de cupidez, ele já havia aprendido coisa suficiente para reconhecer que Eric tinha razão: eles eram perfeitos um para o outro.

Não durou muito tempo. Clomicos foi demitido. Política do reino de Vênus.
Clomicos, no entanto, pediu uma sessão parlamentar com Vênus para lhe explicar a situação em detalhes, atentando para o fato de que algo devia urgentemente ser feito no caso dos pobres Eric e Ízabel. Afinal, era raro se ter uma expressão viva tão forte do potencial que tem o amor. Clomicos, que antes de tudo era um apaixonado pelo seu trabalho, implorou: coloque alguém no caso que possa resolver isso.

Vênus, que não podia retirar Gorcos do caso por questões políticas, pensou na melhor forma de contra-atacar suas restrições. Foi quando chamou Mikaelikos, com seus mais de 3200 anos de experiência.

Mikaelikos, após leitura do dossiê. Colocou-o de lado e sorriu.
Gostava de casos como esse, belo e autêntico.
Teria alguns detalhes a trabalhar mas não deveria ser muito difícil.

Pegou então sua nova lira e foi praticar. Domingo seria sua estréia.

sábado, 17 de julho de 2010

O dia em que meu pai morreu.

Eu tinha doze anos.
Minha irmã mais velha me acordou no meio da noite.
“Papai está morrendo!”
Corremos pro seu quarto. Lá estava ele agonizando em sua cama.
Minha mãe molhava um pano numa bacia para passar em seu rosto vermelho.
Lembro ter ficado, naquele momento, magnetizado com a descoberta de um lado fraco de meu pai. Sua fraqueza, se é que já existira até aquele momento, mostrava sua cara para mim pela primeira vez. E eu não gostara daquilo.

Sua agonia era composta de picos de dor.
Gemidos e alguns gritos acompanhavam estes picos. Minha irmã já saíra do quarto. Não agüentava a situação. Minha mãe, confrontada ao pior, parecia triste, mas permanecia serena. E eu ficava olhando, imóvel, ao pé da cama, curioso e assustado.

Foi entre uma dor e outra que meu pai percebeu minha presença.
Um olhar. súbito e derradeiro.
Este olhar ainda está fixo em minhas lembranças, tantos anos depois. Um olhar de quem faria tudo para que eu não presenciasse aquele momento.

Austero, sempre de paletó, meu pai passara a vida tentando preservar a rigidez das boas maneiras e da virtude. Olho hoje e reconheço: ele era duro. De uma dureza cuja ternura somente eu reconhecia. Não me beijava ou abraçava. Falávamos pouco. Via-o pouco. Mas não passava um dia sequer em que, de noite, após chegar do escritório, ele não entrasse no meu quarto e ficasse me observando. Às vezes ele sentava ao meu lado na cama. Eu, fingindo dormir. Ele passava um longo momento parado e eu sentia então sua respiração. Do meu lado, tomava todo o cuidado para ele não perceber o meu sorriso.

Na manhã seguinte daquela madrugada, meu pai estava estirado num caixão, na sala de minha casa. Minhas tias choravam, meus tios brincalhões não brincavam. Minha mãe andava de um lado pro outro, aflita, oferecendo café a todos os presentes e respondendo que estava tudo bem, estava tudo bem...

Andei até o caixão. Lá estava meu pai, com seu velho paletó. A expressão de seu rosto mudara drasticamente daquele momento de agonia para agora. Na realidade, nunca havia visto aquela sua expressão até então. Uma expressão calma, solta de qualquer peso de rigidez. Uma expressão de paz e tranqüilidade.
Passei um momento olhando para o seu rosto e então tive uma certeza: essa era a expressão que ele tinha quando eu estava virado de costas para ele na minha cama.

Pai, assustei a menina...

Pai, assustei a menina.
Não bastaram suas advertências, me perdi de novo no país das maravilhas.
E antes que pudesse perceber qualquer coisa, havia perdido tudo.
Resultado: mar de lágrimas e a cabeça cortada.
A rainha de copas agradece.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Regressos...

Sono leve, acordei-me com algum pequeno barulho.
Abri os olhos e encontrei o quarto do jeito que o havíamos deixado.
Escuro. Iluminado apenas pela luz do banheiro.
Permaneci deitado, olhando ao meu redor.
O lugar ao meu lado estava vazio. Você estava no banheiro.
Ainda imóvel, avaliei o estado do quarto. Lençóis ao pé da cama, embalagens de preservativos jogadas no chão e, ao meu lado, na pequena mesa de cabeceira, um “cardápio” de fantasias eróticas. Meu corpo nu sentiu o frio do ar-condicionado, mas nada fiz.

Minha cabeça doía. Sobras do álcool.
Mas pior que qualquer incômodo físico, o ter de olhar para você se revelou meu pior suplício.
Via-a apenas por uma parte do espelho que minha vista conseguia alcançar e que refletia parte de seu rosto. Permaneci na mesma posição, com o cuidado de não fazer nada que lhe comunicasse que eu estava acordado. Apenas a observava.

Estava limpando o rosto com um algodão. Retirando o excesso de lápis que borrara sua expressão durante a noite tão mal dormida. Seus movimentos eram suaves e acompanhavam harmonicamente sua fisionomia feliz.
O quanto de felicidade poderia traduzir um rosto? Ali estava a resposta. E você a dava apenas para mim, sem o saber, a cada pincelada de algodão.

Quis gritar que parasse de se sentir tão feliz. Não voltaria mais a estar com você. Eu já era de outra e você já compunha meu passado. Esta noite havia sido... um erro, um engano, um equívoco, uma descaída, uma imprudência, um deslize, uma claudicação. Resultado inevitável dos efeitos etílicos em duas pessoas com a nossa história.

Antes que eu pudesse pensar em algo mais. Você saiu do banheiro e me viu acordado.
Sorriu.
Envergonhado, me cobri com o lençol.

O resto você já sabe.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Jonas e Maria-Cecília

O amor-próprio de Jonas tinha um limite: Maria Cecília.

Tudo se tornara mais bonito desde que Maria Cecília entrara para sua vida. Sua inércia inerente para com as atividades do cotidiano levara uma propulsão sem tamanho. Todos os seus deveres deveriam ser cumpridos no devido prazo. Mais que isso: seus deveres não eram o suficiente. Mais atividades foram arranjadas. Começara até mesmo a escrever sonetos, escutar Bach e procurar trabalho. Havia de ser grande para seu grande amor.
Ligava-lhe a toda hora para saber se estava bem. Lia seus livros preferidos para poder comentá-los com ela mais tarde. Havia criado um sistema com o calendário que gerava datas aleatórias em ciclos imprevisíveis para lhe oferecer ora bombons, ora flores.

Maria Cecília apreciava o namoro deles. Acomodada, recebia todo dia a ligação de Jonas, que nunca faltava ao compromisso. Falava até se cansar e inventava algo para desligar. Recebia seus presentes com o prazer de uma obrigação bem feita e é verdade que, uma vez, ao não ter presente para dar no aniversário de uma amiga sua, reembrulhou a caixa de Ferrero Rocher, trocou o bilhete por um seu e partiu para a festa.

Ora, leitor, é importante não julgar rápido por demais a jovem Maria Cecília. Seu aparente pouco-caso não foi senão o resultado do equilíbrio estabelecido entre os dois desde os primórdios e nenhum é mais responsável que o outro.

Essa rotina durara por mais de ano.
Foi quando veio o avalanche: Jonas a traíra. Mais de uma vez.
Como isto era possível?
Jonas tão bobinho de amor. Tão sujeito à relação deles...
Veio o fim. E o recomeço.
Os dois se gostavam. Haviam se acostumado um ao outro.
E lá estavam os bombons e as flores mais uma vez, a música improvisada no violão, as velas acompanhando um fondue de queijo...

Jonas, se muito dava, também muito cobrava, secretamente. E cada descaso de sua amada lhe doía. Cada palavra a menos, que ela deixava de lhe dizer, era um golpe enorme para si.
Ora, mesmo que Jonas tentasse conquistar um pouco de prestígio de sua namorada, tentasse equilibrar a balança deixando, por exemplo, de ligar para ela e esperando que ela o fizesse, ela não chegava a o fazer antes que ele sucumbisse à ansiedade.
O amor-próprio de Jonas tinha um limite: Maria Cecília.

O enorme vazio que esta situação gerava dentro de si, Jonas tentava compensar no encontro com outras, que lhe davam toda a atenção de uma primeira noite. Toda a atenção que ele precisava.
Muitas meninas passaram por ele – era bonito, fácil de conseguir alguém.
Deitava-se com cada uma delas.
Não podia pensar em Maria-Cecília, pois que senão chorava.
Resolvia o caso de forma rápida, sem amor, nem prazer.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Estive em Paris e pensei em você...

Estive em Paris e pensei em você.
O Boulevard St-Michel estava do jeito que você gosta. De baixo de neblina, não tão cheio.
Entrei num café e estava tocando, numa velha radiola, um disco de Moustaki.
Sentei-me. Nem tirei meu casaco.
Respondi ao garçom com meu francês definhado “hã cafê”, e ele partiu logo, sem nada dizer.
Novamente só, peguei-me a aproveitar a situação de estar pensando em você novamente. Sabia já há algum tempo que minha viagem a Paris não me ajudaria muito na tarefa de te esquecer mas confesso que estava surpreso com minha passibilidade até aquele momento. Até então, havia conseguido me distrair muito bem com as meninas do Ste. Gertrudes e as noitadas no Nicos, uma casa noturna de segundo escalão numa perpendicular da Champs Élisées.

E, no entanto, entrando naquele café, naquele dia nublado e parado, você abruptamente invadiu meus pensamentos. Era como se eu entrasse no seu quarto depois desse tempo todo e visse de novo todos aqueles objetos meticulosamente organizados em cima de suas estantes, mesa, e cama. A primeira rosa que eu havia lhe dado, seca e guardada dentro de um papel-seda cor cenoura. Uma porta-retrato com nossa foto na Serra do Catolé (que já não devia estar mais lá...), seu livro de contos de Clarice Lispector, todo usado, quase rasgado. E Bob, o panda de pelúcia cujo nome era eternamente provisório.

Fui me lembrando aos poucos dos acontecimentos. Nosso primeiro encontro em Olinda. A primeira vez que dançamos no meio da rua (os carros passavam e as senhoras apontavam para a gente, risonhas e saudosas de um tempo romântico de suas vidas que agora lhes parecia tão distante). Nossa primeira noite, num albergue a caminho de Borocatu. A primeira vez que falei com você num tom sarcástico (primeira de tantas...). As brigas por você dedicar tempo demais ao trabalho. E, claro... Eduardo! O começo do fim. Meu ciúme doentio, suas lágrimas cansadas, o sexo teso e não prazeroso... E aquele último beijo combinado. Por demais carregado. Um beijo não agüenta tanta carga! Não deveria haver últimos beijos. E, no entanto, naquela hora faria qualquer coisa para sentir seu hálito mais uma vez...

A saudade fez mais uma vez suas provas. Não havia como retê-la. E se por desventura se quisesse ignorá-la, ela se acumularia e o pegaria desprevenido, em algum dia nublado, em algum café do Boulevard St-Michel.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Livro Imaginário Trecho primeiro

Quando entrei na sala e vi-la se ajeitar abruptamente em sua cadeira, senti que algo mudara para sempre. Eu não sabia ao certo o que me diria, embora pudesse supor. Mas sabia que o que eu criara sobre nós não sobreviveria aos duros golpes da realidade.

- Oi! Me disse ela. E em sua voz sentia-se, ainda assim, seu tom meio morango, meio limão.

Conhecia esse seu tom. Respondi-lhe com um sorriso fraco, piedoso, numa tentativa derradeira de salvar o que eu já sabia perdido.
Sentei-me ao seu lado em silêncio e em silêncio ficamos por um tempo.
Ela me olhava, buscando um convite à fala que, naturalmente, não lhe concedi.
Após alguns instantes, como que exasperada pelo impasse, se deu a falar.
Só lhe permiti algumas palavras: Logo caí em prantos.
Seu ar mudou. Quis me consolar, mesmo sabendo que era praticamente por esta única razão que me permiti ao choro.
Não havia nenhum problema em me humilhar. A luz da tristeza já estava apontada para mim. Nada então poderia me tirar de cena: choraria até o fim.

(Trecho do livro imaginário de Henrique Vieira)